Cincopes

on 04 março 2026

PROSA - VAMOS FALAR DE AGENDA SETTING?

A grande imprensa e os jornalões se repetem o dia inteiro nos mesmos assuntos.

Na TV, há um padrão: troca de apresentadores e rodízio de meia dúzia de comentaristas repetindo pretensas análises o dia inteiro sobre a mesma tecla, sem qualquer fato novo ou apuração aprofundada. Banco Master, INSS, candidaturas presidenciais, arranjos da direita e crimes violentos são os temas que se repetem há mais de mês.

A nova guerra de trampi mudou um pouco o cenário e a nova prisão de Vorcaro envolvendo violência contra jornalistas e fatos novos que incluem a gestão de Campos Neto no Banco Central, devem aquecer as pautas e aquietarão o bolsonarismo.

Violência e polêmica vende!

A imprensa cria uma polarização inexistente, no Brasil. Não há uma luta entre extrema-direita e extrema-esquerda e seria um grande serviço à nação, se mostrassem que é uma luta de resistência da democracia contra uma autocracia fascista e reacionária.

Os jornais conseguem repetir a mesma manchete e disfarçam trocando adjetivos.

Leio jornais e agências de notícias de outros países e em nenhum lugar do mundo há essa concentração temática.

O poder de definir qual fato será notícia é exclusivo da imprensa. E se há concentração de meios nas mãos de poucos, eles definem o que será de domínio público e qual o viés predominante.

AGENDA SETTING é um conceito de comunicação proposto por Maxwell McCombs e Donald Shaw, nos anos 70 e define que a imprensa não só diz como pensar, mas sobre o que pensar.

No primeiro mundo, onde a imprensa é livre e democrática, isso acontece nas redações. No Brasil, acontece num encontro entre famílias e na Faria Lima.

E como ela seria livre e democrática? Sendo uma comunicação realmente social e humana, focando no interesse da comunidade, sem amarras ideológicas, grupos políticos ou interesses econômicos cruzados. Meios de comunicação, como em países com imprensa livre, não podem fazer parte de grupos econômicos para evita impactos em seu compromisso com a verdade.

Muitos conglomerados e veículos tem interesses cruzados no mercado ou estão presos a grupos políticos, econômicos ou religiosos através de participação ou conexões. São bancos, meios de pagamento, incorporadoras, construtoras, shoppings, bets, streaming, telecomunicações, transportes, saúde privada, agronegócio e grupos de apoio a partidos ou políticos de estimação.

Os maiores jornais e portais de economia são de conglomerados, bancos e fundos de investimento, o que faz até as boas notícias sempre aparecerem seguidas de um “mas”.

O Boletim Focus, por exemplo, é colhido com pesquisa entre entes do mercado financeiro. Se a maioria prever 2%, por exemplo, e apenas um chutar na bandeirinha de escanteio um 5%, há uma distorção significativa. E ninguém saberá quem manipulou o resultado. Entenderam porque eles nunca acertam a previsão de PIB e inflação anual? Eles ganham diariamente, semanalmente e mensalmente mexendo com o humor dos incautos. Em dezembro, a previsão pouco importa, porque o ano foi extremamente rentável para o mercado.

No início dos anos 2000, ficou conhecido o caso de um grupo que fazia matérias sobre violência num bairro e depois reunia os comerciantes para fazer uma campanha de resgate da imagem da região. Essa mesma empresa, no final dos anos 90, abatera em voo a candidatura ao governo do estado de um funcionário para colocar seu protegido que, no cargo, ajeitou sua participação em privatizações. Atualmente, a construtora do grupo, em conjunto com outros dos ramos imobiliário, shopping e alimentos, sustentam a administração municipal em troca de mudanças no plano diretor, administração de bens públicos e autorizações para construções de grandes projetos imobiliário e bairros privados que impactarão o meio ambiente e a infraestrutura da cidade, sem contrapartidas.

Na próxima cheia, o rio já está escalado para ser culpado.

Esse modelo de atuação se repete em maior ou menor escala no país inteiro e justifica sua reação violenta à uma regulação do que é mídia e do que é imprensa.

A situação chega ao cúmulo de culpar os méritos do governo federal pelas boas novas.

Em janeiro do ano passado, a previsão do PIB era pífia. Ao dar manchete para o resultado de 2,3%, dizem que o resultado poderia ser melhor se não fosse a “gastança” do Lula. O poder nunca vai entender responsabilidade social além do marketing, mas como real política pública de longo prazo. É sempre gasto, nunca investimento. Falta a pauta que vai mostrar o impacto deste investimento em 10/15 anos, quantos serão impactados e como isso muda a realidade das pessoas. Os resultados do Bolsa-Família são concretos, mas nunca tratados com a mesma profundidade que o investimento. Como seria o Brasil sem o Bolsa-Família? Alguém imagina?

Isso se repete ao noticiar o déficit de estatais, onde recursos saem do próprio caixa da empresa e se tornam investimentos, mas os espertos transformam a mudança de centro de custo em prejuízo.

A mesma coisa com o índice de endividamento médio da população. Se você não tem casa própria, não deve. Se não tem carro, não deve. Se você ousar comprar um Minha Casa, Minha Vida ou um carrinho, você vira endividado. Portanto, é normal o nível de endividamento crescer se cair a taxa de desemprego, porque tem mais gente consumindo. Atenção, mancheteiros: endividado não é a mesma coisa que inadimplente.

Por que não dar vida a uma pauta que analise com profundidade e justiça os números da economia brasileira? Por que atingimos estes índices? Onde estão estes empregos? Como podem afetar o desenvolvimento futuro do país? Qual o impacto do cenário mundial? Qual a importância do investimento em saúde e educação? Qual o impacto na receita da previdência social? O que muda na massa salarial? O que muda nos hábitos de vida e consumo? Quais os setores mais impactados? Onde está essa mobilidade social por região? Como as empresas se preparam para o novo trabalhador? Qual a importância do governo no processo?

Sem orientação do departamento comercial ou do board, precisamos discutir o real impacto da mudança na jornada de trabalho.

Notícia é um fato publicado.  AGENDA SETTING é a capacidade de definir o que será notícia, o que será manchete e por quanto tempo renderá audiência.

Em países com democracia consolidada, é proibido a imprensa ter outros interesses que não a notícia, e a quebra desta regra, pode abalar a sociedade.

O risco que corre a democracia estadunidense é um exemplo. A mudança ocorrida no mandato anterior de Trump permitindo a doação anônima de empresas aos candidatos ou partidos com a criação dos Super PACs levou à monetização da democracia e a oligarquia avançou sobre o sistema, usando o que a verdadeira imprensa de lá chama de Dark Money (dinheiro obscuro).

A cobiça pela Groenlândia é o ápice de uma luta antiga. Um grupo de bilionários tenta comprar grandes áreas do país com a ideia de criar um território livre sob seu comando e suas próprias regras, livre de impostos, mas o governo local nega. A finalidade do arroubo trampista é tomar o território e entregar aos bilionários com a promessa de ser o 51º estado estadunidense com liberdade política e administrativa.

A secretária de Educação comprou o cargo com doações de campanha. O secretário de Defesa comprou o cargo com doações de campanha. Elon Musk comprou o cargo com doações de campanha.

Mark Zuckerberg, o todo poderoso da Meta e um dos maiores apoiadores do atual governo estadunidense, comprou um ícone da imprensa norte-americana, o Washington Post e demitiu 300 funcionários, quase um terço do quadro.

O cerco à democracia e o risco de implantação de uma autocracia é latente, uma Gilead em território norte-americano não é uma quimera.

Aqui temos os riscos de indicações políticas para agências regulatórias e estatais, mas a sociedade consegue fiscalizar, graças à Lei da Informação, portais de transparência e ONG civis.

Precisamos nos ver como o mundo nos vê, longe do complexo de vira-lata.

O Brasil é o sétimo país em população, quinto em território, décima economia em PIB, o real é uma das moedas mais valorizadas em relação ao dólar e nos recuperamos nos rankings de democracia depois da forte queda entre 2018-2022 e voltou a ser presente e ouvido em foros internacionais.

É claro que temos muitos problemas, mas em população e território, nos tornamos a MAIOR DEMOCRACIA do mundo.

Uma forma de entender nossa sociedade, passa por analisar a qualidade da AGENDA SETTING de nossa imprensa, porque além da liberdade de expressão, temos direito à informação.

VOTE CONSCIENTE!