A grande imprensa e os jornalões se repetem o dia inteiro nos mesmos assuntos.
Na TV, há um padrão: troca de
apresentadores e rodízio de meia dúzia de comentaristas repetindo pretensas
análises o dia inteiro sobre a mesma tecla, sem qualquer fato novo ou apuração
aprofundada. Banco Master, INSS, candidaturas presidenciais, arranjos da
direita e crimes violentos são os temas que se repetem há mais de mês.
A nova guerra de trampi mudou um pouco
o cenário e a nova prisão de Vorcaro envolvendo violência contra jornalistas e
fatos novos que incluem a gestão de Campos Neto no Banco Central, devem aquecer
as pautas e aquietarão o bolsonarismo.
Violência e polêmica vende!
A imprensa cria uma polarização
inexistente, no Brasil. Não há uma luta entre extrema-direita e extrema-esquerda
e seria um grande serviço à nação, se mostrassem que é uma luta de resistência
da democracia contra uma autocracia fascista e reacionária.
Os jornais conseguem repetir a mesma
manchete e disfarçam trocando adjetivos.
Leio jornais e agências de notícias de
outros países e em nenhum lugar do mundo há essa concentração temática.
O poder de definir qual fato será
notícia é exclusivo da imprensa. E se há concentração de meios nas mãos de
poucos, eles definem o que será de domínio público e qual o viés predominante.
AGENDA
SETTING é um conceito de comunicação proposto por Maxwell
McCombs e Donald Shaw, nos anos 70 e define que a imprensa não só diz
como pensar, mas sobre o que pensar.
No primeiro mundo, onde a imprensa é
livre e democrática, isso acontece nas redações. No Brasil, acontece num
encontro entre famílias e na Faria Lima.
E como ela seria livre e democrática?
Sendo uma comunicação realmente social e humana, focando no interesse da comunidade,
sem amarras ideológicas, grupos políticos ou interesses econômicos cruzados. Meios
de comunicação, como em países com imprensa livre, não podem fazer parte de
grupos econômicos para evita impactos em seu compromisso com a verdade.
Muitos conglomerados e veículos tem
interesses cruzados no mercado ou estão presos a grupos políticos, econômicos
ou religiosos através de participação ou conexões. São bancos, meios de
pagamento, incorporadoras, construtoras, shoppings, bets, streaming,
telecomunicações, transportes, saúde privada, agronegócio e grupos de apoio a
partidos ou políticos de estimação.
Os maiores jornais e portais de
economia são de conglomerados, bancos e fundos de investimento, o que faz até
as boas notícias sempre aparecerem seguidas de um “mas”.
O Boletim Focus, por exemplo, é
colhido com pesquisa entre entes do mercado financeiro. Se a maioria prever 2%,
por exemplo, e apenas um chutar na bandeirinha de escanteio um 5%, há uma
distorção significativa. E ninguém saberá quem manipulou o resultado.
Entenderam porque eles nunca acertam a previsão de PIB e inflação anual? Eles
ganham diariamente, semanalmente e mensalmente mexendo com o humor dos
incautos. Em dezembro, a previsão pouco importa, porque o ano foi extremamente
rentável para o mercado.
No início dos anos 2000, ficou conhecido
o caso de um grupo que fazia matérias sobre violência num bairro e depois
reunia os comerciantes para fazer uma campanha de resgate da imagem da região.
Essa mesma empresa, no final dos anos 90, abatera em voo a candidatura ao
governo do estado de um funcionário para colocar seu protegido que, no cargo,
ajeitou sua participação em privatizações. Atualmente, a construtora do grupo, em
conjunto com outros dos ramos imobiliário, shopping e alimentos, sustentam a
administração municipal em troca de mudanças no plano diretor, administração de
bens públicos e autorizações para construções de grandes projetos imobiliário e
bairros privados que impactarão o meio ambiente e a infraestrutura da cidade,
sem contrapartidas.
Na próxima cheia, o rio já está
escalado para ser culpado.
Esse modelo de atuação se repete em
maior ou menor escala no país inteiro e justifica sua reação violenta à uma
regulação do que é mídia e do que é imprensa.
A situação chega ao cúmulo de culpar
os méritos do governo federal pelas boas novas.
Em janeiro do ano passado, a previsão
do PIB era pífia. Ao dar manchete para o resultado de 2,3%, dizem que o
resultado poderia ser melhor se não fosse a “gastança” do Lula. O poder nunca
vai entender responsabilidade social além do marketing, mas como real política
pública de longo prazo. É sempre gasto, nunca investimento. Falta a pauta que
vai mostrar o impacto deste investimento em 10/15 anos, quantos serão
impactados e como isso muda a realidade das pessoas. Os resultados do
Bolsa-Família são concretos, mas nunca tratados com a mesma profundidade que o
investimento. Como seria o Brasil sem o Bolsa-Família? Alguém imagina?
Isso se repete ao noticiar o déficit
de estatais, onde recursos saem do próprio caixa da empresa e se tornam
investimentos, mas os espertos transformam a mudança de centro de custo em
prejuízo.
A mesma coisa com o índice de
endividamento médio da população. Se você não tem casa própria, não deve. Se
não tem carro, não deve. Se você ousar comprar um Minha Casa, Minha Vida ou um
carrinho, você vira endividado. Portanto, é normal o nível de endividamento
crescer se cair a taxa de desemprego, porque tem mais gente consumindo. Atenção,
mancheteiros: endividado não é a mesma coisa que inadimplente.
Por que não dar vida a uma pauta que analise
com profundidade e justiça os números da economia brasileira? Por que atingimos
estes índices? Onde estão estes empregos? Como podem afetar o desenvolvimento
futuro do país? Qual o impacto do cenário mundial? Qual a importância do
investimento em saúde e educação? Qual o impacto na receita da previdência
social? O que muda na massa salarial? O que muda nos hábitos de vida e consumo?
Quais os setores mais impactados? Onde está essa mobilidade social por região?
Como as empresas se preparam para o novo trabalhador? Qual a importância do
governo no processo?
Sem orientação do departamento comercial
ou do board, precisamos discutir o real impacto da mudança na jornada de
trabalho.
Notícia é um fato publicado. AGENDA
SETTING é a capacidade de definir o que será notícia, o que será manchete e
por quanto tempo renderá audiência.
Em países com democracia consolidada,
é proibido a imprensa ter outros interesses que não a notícia, e a quebra desta
regra, pode abalar a sociedade.
O risco que corre a democracia
estadunidense é um exemplo. A mudança ocorrida no mandato anterior de Trump
permitindo a doação anônima de empresas aos candidatos ou partidos com a
criação dos Super PACs levou à monetização da democracia e a oligarquia avançou
sobre o sistema, usando o que a verdadeira imprensa de lá chama de Dark Money
(dinheiro obscuro).
A cobiça pela Groenlândia é o ápice de
uma luta antiga. Um grupo de bilionários tenta comprar grandes áreas do país
com a ideia de criar um território livre sob seu comando e suas próprias regras,
livre de impostos, mas o governo local nega. A finalidade do arroubo trampista é
tomar o território e entregar aos bilionários com a promessa de ser o 51º
estado estadunidense com liberdade política e administrativa.
A secretária de Educação comprou o
cargo com doações de campanha. O secretário de Defesa comprou o cargo com
doações de campanha. Elon Musk comprou o cargo com doações de campanha.
Mark Zuckerberg, o todo poderoso da
Meta e um dos maiores apoiadores do atual governo estadunidense, comprou um
ícone da imprensa norte-americana, o Washington Post e demitiu 300
funcionários, quase um terço do quadro.
O cerco à democracia e o risco de
implantação de uma autocracia é latente, uma Gilead em território
norte-americano não é uma quimera.
Aqui temos os riscos de indicações
políticas para agências regulatórias e estatais, mas a sociedade consegue
fiscalizar, graças à Lei da Informação, portais de transparência e ONG civis.
Precisamos nos ver como o mundo nos
vê, longe do complexo de vira-lata.
O Brasil é o sétimo país em população,
quinto em território, décima economia em PIB, o real é uma das moedas mais
valorizadas em relação ao dólar e nos recuperamos nos rankings de democracia
depois da forte queda entre 2018-2022 e voltou a ser presente e ouvido em foros
internacionais.
É claro que temos muitos problemas,
mas em população e território, nos tornamos a MAIOR DEMOCRACIA do mundo.
Uma forma de entender nossa sociedade, passa por analisar a qualidade da AGENDA SETTING de nossa imprensa, porque além da liberdade de expressão, temos direito à informação.
VOTE CONSCIENTE!

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