Cincopes

on 13 abril 2026

POLÍTICA - ESQUERDA X DIREITA

Nadie amasa una fortuna sin hacer harina a los demás (Ninguém enriquece sem causar sofrimento aos outros) Quino, por Manolito, em Mafalda

O mapa ideológico que organizou a política em todo o mundo não existe mais.

Mesmo com algumas variações locais, a ideia básica era: direita é elite, poder econômico e dinheiro. Esquerda é popular, justiça social e igualdade.

Essa visão simplista e incompleta, merece ser questionada ou não entenderemos o mundo e facilmente seremos instrumentos políticos de aproveitadores.

Direita e esquerda não são imutáveis e nem ontológicos e vivem longe do tempo de girondinos e jacobinos. Entender isso pode fazer a direita e a esquerda retomarem sua gênese, afastar os aproveitadores e fazer com que voltem a falar direto à população. Ambas precisam se legitimar como populares, atuando nos campos cultural, econômico e social dentro de suas idiossincrasias para que voltemos a ter debates ideológicos e confrontos de programas diferentes, mas sempre com foco no interesse público.

Há mais de 40 anos trabalho com os dois espectros e entendo que é uma questão de prioridades, nunca sobre o objetivo, porque sempre há mais de um caminho para se chegar a algum lugar.

A direita não é a favor da desigualdade, apenas entende que ela é natural no capitalismo que privilegia a liberdade individual. A esquerda acha a desigualdade injustificável e acha que é preciso mudar o sistema e que cabe ao estado oferecer oportunidades para os desiguais. São pontos de vista que podem ser alinhados num diálogo produtivo para que essa dicotomia e a alternância faça o país andar um pouco de cada vez. Ter só um lado é fazer o país crescer manco.

Há uma elite econômica e cultural na esquerda que vive em bolhas, fora do cotidiano do povo, mas segue uma agenda progressista. Esse fato é usado para menosprezar sua luta com pechas como “esquerda caviar”.

Há uma elite econômica na direita que vive em bolhas, fora do cotidiano do povo e segue uma agenda conservadora. Esse fato é usado para menosprezar sua luta com pechas como “privatista entreguista”.

Em Porto Alegre, esse paradoxo está presente na gentrificação de bairros e mudanças no plano diretor. A resistência é capitaneada por acadêmicos, ambientalistas e profissionais liberais que não conseguem o apoio da população na defesa de sua própria cidade. É a comprovação da tese de Thomas Piketty de que a esquerda deixou de ser o partido dos trabalhadores para ser o partido dos educados.

A direita pariu o neoliberalismo, causa maior da desigualdade. A extrema-direita surfou na onda e reviveu, engajando vítimas da globalização, desabrigados, carentes de pertencimento e desencantados. Ela não entende as vítimas, mas se aproveita delas, via populismo.

A sociedade atual é um misto de frivolidade, desigualdade, ganância, religiosidade cega, corrupção, individualismo, inveja, ignorância e falta de consciência crítica, fomentada por quem se aproveita desses desvios de caráter da população. Não entender o espírito de classes faz os pobres defenderem os ricos como se fossem seus iguais.

O sistema precisa ser mudado, mas enquanto as pessoas não entenderem que está em suas mãos a mudança, continuarão sendo marionetes.

Aviso de spoiler: ricos não estão preocupados com ideologia, pátria, soberania, esquerda ou direita, eles apenas querem manter o sistema.

Não é surpresa os eleitores de Milei, Trump e Bolsonaro se concentrarem entre os menos favorecidos, intelectual e economicamente, fáceis de serem manipulados.

É um grupo que tem identidade emocional entre si, não quer a verdade, precisa corroborar seus anseios e dogmas e defender seu grupo. A Gilead é seu sonho.

Como suas aspirações materiais são inalcançáveis, criam um culpado para manter ardentemente suas aspirações emocionais e religiosas. É comum na teologia da prosperidade que encurrala o seguidor que não conquista seus objetivos o acusando de pouca fé.

Ideologia como conhecemos deixou de fazer sentido, porque a luta é sobre visões de mundo.

Nem sempre quem tem dinheiro tem poder ou legitimidade cultural. Quem não tem um, os dois ou nenhum, pode ter o poder real, porque o poder é transversal.

Essa dialética coloca em confronto a própria palavra democracia.

A China se diz uma república democrática, tem partido único, é o maior investidor e credor dos EUA, tem controle absoluto sobre o país, PIB nominal de U$ 20tri, PIB por Paridade do Poder de Compra de U$ 43 tri e entrega saúde, educação, segurança, trabalho, tecnologia e moradia para uma população de 1,4 bilhão de chineses.

Os EUA se diz democrático, acaba de perder o status de liberal, tem 70 partidos políticos, mas só 2 decidem, é o maior devedor mundial (U$39 tri, 120% do PIB), PIB nominal de U$ 36 tri,  PIB por Paridade do Poder de Compra de U$ 31 tri e não entrega saúde, educação, segurança, trabalho, tecnologia e moradia para uma população de pouco mais de 330 milhões de estadunidenses.

Alguns dirão “a China matou milhões”. Concordo, mas quantos milhões tem morrido, e continuam morrendo, pela desigualdade, mudanças climáticas e doenças que o dinheiro gasto em guerras (que matam inocentes) podia resolver?

Estes são fatos claros e geopolíticos, não uma defesa de qualquer dos regimes, porque entendo que temos condições de ter um sistema nacional que contemple os interesses dos brasileiros.

Liberdade para votar sem as asas do conhecimento e da cultura são como asas para pássaros em gaiolas.

Se há novas ideias e novos cenários, porque teimamos em usar o mesmo discurso e as mesmas estratégias?

Confúcio dizia que se todo mundo seguir o mesmo caminho, todos chegarão ao mesmo lugar.

O mundo muda e se não fizermos questionamentos permanentes, continuaremos vivendo no passado.

VOTE CONSCIENTE!