Nadie amasa una fortuna sin hacer harina a los demás (Ninguém enriquece sem causar sofrimento aos outros) Quino, por Manolito, em Mafalda
O mapa ideológico que organizou a política em todo o mundo não existe
mais.
Mesmo com algumas variações locais, a ideia básica era: direita é elite,
poder econômico e dinheiro. Esquerda é popular, justiça social e igualdade.
Essa visão simplista e incompleta, merece ser questionada ou não entenderemos o mundo e facilmente seremos instrumentos políticos de aproveitadores.
Direita e esquerda não são imutáveis e nem ontológicos e vivem longe do
tempo de girondinos e jacobinos. Entender isso pode fazer a direita e a
esquerda retomarem sua gênese, afastar os aproveitadores e fazer com que voltem
a falar direto à população. Ambas precisam se legitimar como populares, atuando
nos campos cultural, econômico e social dentro de suas idiossincrasias para que
voltemos a ter debates ideológicos e confrontos de programas diferentes, mas sempre
com foco no interesse público.
Há mais de 40 anos trabalho com os dois espectros e entendo que é uma
questão de prioridades, nunca sobre o objetivo, porque sempre há mais de um
caminho para se chegar a algum lugar.
A direita não é a favor da desigualdade, apenas entende que ela é natural
no capitalismo que privilegia a liberdade individual. A esquerda acha a
desigualdade injustificável e acha que é preciso mudar o sistema e que cabe ao
estado oferecer oportunidades para os desiguais. São pontos de vista que podem ser
alinhados num diálogo produtivo para que essa dicotomia e a alternância faça o
país andar um pouco de cada vez. Ter só um lado é fazer o país crescer manco.
Há uma elite econômica e cultural na esquerda que vive em bolhas, fora do
cotidiano do povo, mas segue uma agenda progressista. Esse fato é usado para
menosprezar sua luta com pechas como “esquerda caviar”.
Há uma elite econômica na direita que vive em bolhas, fora do cotidiano
do povo e segue uma agenda conservadora. Esse fato é usado para menosprezar sua
luta com pechas como “privatista entreguista”.
Em Porto Alegre, esse paradoxo está presente na gentrificação de bairros
e mudanças no plano diretor. A resistência é capitaneada por acadêmicos,
ambientalistas e profissionais liberais que não conseguem o apoio da população
na defesa de sua própria cidade. É a comprovação da tese de Thomas Piketty de
que a esquerda deixou de ser o partido dos trabalhadores para ser o partido dos
educados.
A direita pariu o neoliberalismo, causa maior da desigualdade. A extrema-direita
surfou na onda e reviveu, engajando vítimas da globalização, desabrigados, carentes
de pertencimento e desencantados. Ela não entende as vítimas, mas se aproveita
delas, via populismo.
A sociedade atual é um misto de frivolidade, desigualdade, ganância,
religiosidade cega, corrupção, individualismo, inveja, ignorância e falta de
consciência crítica, fomentada por quem se aproveita desses desvios de caráter
da população. Não entender o espírito de classes faz os pobres defenderem os
ricos como se fossem seus iguais.
O sistema precisa ser mudado, mas enquanto as pessoas não entenderem que está
em suas mãos a mudança, continuarão sendo marionetes.
Aviso de spoiler: ricos não
estão preocupados com ideologia, pátria, soberania, esquerda ou direita, eles
apenas querem manter o sistema.
Não é surpresa os eleitores de Milei, Trump e Bolsonaro se concentrarem
entre os menos favorecidos, intelectual e economicamente, fáceis de serem
manipulados.
É um grupo que tem identidade emocional entre si, não quer a verdade,
precisa corroborar seus anseios e dogmas e defender seu grupo. A Gilead é seu
sonho.
Como suas aspirações materiais são inalcançáveis, criam um culpado para manter
ardentemente suas aspirações emocionais e religiosas. É comum na teologia da
prosperidade que encurrala o seguidor que não conquista seus objetivos o
acusando de pouca fé.
Ideologia como conhecemos deixou de fazer sentido, porque a luta é sobre
visões de mundo.
Nem sempre quem tem dinheiro tem poder ou legitimidade cultural. Quem não
tem um, os dois ou nenhum, pode ter o poder real, porque o poder é transversal.
Essa dialética coloca em confronto a própria palavra democracia.
A China se diz uma república democrática, tem partido único, é o maior
investidor e credor dos EUA, tem controle absoluto sobre o país, PIB nominal de
U$ 20tri, PIB por Paridade do Poder de Compra de U$ 43 tri e entrega saúde,
educação, segurança, trabalho, tecnologia e moradia para uma população de 1,4
bilhão de chineses.
Os EUA se diz democrático, acaba de perder o status de liberal, tem 70
partidos políticos, mas só 2 decidem, é o maior devedor mundial (U$39 tri, 120%
do PIB), PIB nominal de U$ 36 tri, PIB
por Paridade do Poder de Compra de U$ 31 tri e não entrega saúde, educação,
segurança, trabalho, tecnologia e moradia para uma população de pouco mais de
330 milhões de estadunidenses.
Alguns dirão “a China matou milhões”. Concordo, mas quantos milhões tem
morrido, e continuam morrendo, pela desigualdade, mudanças climáticas e doenças
que o dinheiro gasto em guerras (que matam inocentes) podia resolver?
Estes são fatos claros e geopolíticos, não uma defesa de qualquer dos
regimes, porque entendo que temos condições de ter um sistema nacional que
contemple os interesses dos brasileiros.
Liberdade para votar sem as asas do conhecimento e da cultura são como
asas para pássaros em gaiolas.
Se há novas ideias e novos cenários, porque teimamos em usar o mesmo
discurso e as mesmas estratégias?
Confúcio dizia que se todo mundo seguir o mesmo caminho, todos chegarão
ao mesmo lugar.
O mundo muda e se não fizermos questionamentos permanentes, continuaremos
vivendo no passado.
VOTE CONSCIENTE!

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