Cincopes

on 01 maio 2026

POLÍTICA - PROLETARIADO PRECARIADO

Os sindicatos de trabalhadores não conseguem captar o grito dos galpões, que dirá o das ruas. Não conhecem o novo trabalhador, não entendem o mundo digital e estão nas redes sociais sem método e sem conteúdo, apenas para sustentar e proteger seu egoísmo burocrático corporativista.

O próprio Partido “dos Trabalhadores” está perdido em sua dualidade - ser parte de um governo heterogêneo e ser um partido de massa.

Os sindicatos automotivos estadunidenses nos deram uma lição com a longa greve no setor e suas sólidas conquistas, entre elas a atração das gerações Z e Alfa às linhas de produção. Reticentes ao formalismo e qualquer relação com entidades de classe, voltaram ao mercado, fortalecendo os sindicatos e reduzindo consideravelmente a faixa etária no chão de fábrica.

Com o avanço da globalização e do neoliberalismo surgiu o PRECARIADO. O dinheiro conquistou trânsito internacional sem amarras ou regras, mas o trabalhador seguiu com regras que priorizam sua insegurança, flertando com uma escravidão moderna.

O empresariado reclama do apagão de mão-de-obra sem reconhecer sua parte no problema. Qualquer empresa deve gerar riqueza também à sociedade, como forma de retribuir as condições para empreender – infraestrutura, educação, saúde, segurança, crédito subsidiado e benefícios tributários (condições especiais, incentivos e isenções). Falha ao uberizar o trabalho, remunerar mal, incentivar a rotatividade e o assédio moral, sem reconhecer o papel fundamental do trabalhador como real gerador de riqueza em sua estrutura de produção.

A uberização virou empreendedorismo, mas o empreendedor de si mesmo, luta por sua subsistência, contrariando a fórmula dos coachs – “quer sucesso, trabalhe bastante”.

O empreendedor individual “empreende dores”, as suas, criando o proletário precariado.

O “empreendedorismo” não melhorou as condições de mobilidade social, foi apenas uma maneira de desestruturar a organização associativa e sindical, dividindo o precariado do proletariado. O sucesso da estratégia os deixou a mercê de oportunistas – coordenador de zap, líderes naturais, políticos oportunistas e exploradores de sua insegurança.

Sem sentido de pertencimento, fazem parte de grupos com espírito de gangues. Vivem de trabalhos temporários, vendem o almoço para pagar a janta.

Sem chefe ou patrão, o Estado e a sociedade passaram a ser culpados por sua situação.

A desarticulação e falta do espírito de classe facilita às empresas. A Uber, por exemplo, infiltra profissionais em grupos de motoristas e motociclistas nas redes para dirigir discussões, atenuar conflitos e identificar vozes a serem silenciadas, punidas ou excluídas sem explicações, um pelourinho digital.

A disseminação do modelo criou os boias-frias modernos, a nova camada social proletária que une campo, cidade, altamente escolarizado, operariado, techprecariado e autônomos.

Se as condições persistirem, teremos uma instabilidade social ou revolução dessa turma em busca de avanço social, econômico e cidadania, incentivada pelo extremismo que cria conexões com essa força e a direciona para atuar nas ruas como seus peões.

Governo e sindicatos devem vê-los como uma nova camada social dentro da classe trabalhadora e encontrar uma forma de apoiar, incluir e alinhar suas aspirações às da sociedade, ajudando em sua conscientização como parte do proletariado. Ao invés de ver futuro algum, entender que só organização e mobilização podem gerar otimismo e ajudar na preservação de direitos conquistados duramente por seus pais.

Hoje é o Dia do Trabalhador e sindicatos e governos devem à sociedade esse esforço de encontrar uma forma de mobilizar e engajar esse pessoal, antes que se tornem massa de manobra, como aconteceu na sequência dos protestos de 2013, onde o extremismo e o radicalismo se apropriaram politicamente de um movimento justo.

Não era a elite na rua. 81% eram jovens entre 14-30 anos, 93% tinham nível médio ou superior incompleto, 50% ganhavam até cinco salários mínimos, 30% entre 5-10 SM e 20% acima de 10 SM. Nascidos na era digital, sofrem nas últimas décadas de um processo de imbecilização cultural, despolitização, irracionalismo social e violência como solução fácil.

Mais de uma década depois, como continuam sem encontrar respaldo nas organizações políticas ou amparo no Estado, eles auto cassam seus direitos políticos. Renegam a organização profissional, descreem da vida coletiva, assumem o individualismo, negam a política, deixam de votar e terceirizam seus direitos aos oportunistas.

Falta ao trabalhador – operário, empresário e empreendedor, entender que TODOS são TRABALHADORES, vivem do suor de seu esforço. Se você não pode parar de trabalhar hoje e viver sem conferir periodicamente o saldo bancário, você é um trabalhador. Assuma seu papel e pare de defender quem manobra o sistema. Esse espírito de classe é que fez outros países progredirem, a união da classe trabalhadora.

Estes pontos, unidos à necessidade de disponibilidade permanente e a ansiedade, geram atitudes irracionais como insatisfação social, frustração profissional, rebeldia, espírito de manada, desencanto, desalento, angústia, relações afetivas supérfluas e flerte com o autoritarismo populista.

O proletário precariado, frustrado em sua busca pelo sucesso e sem compreender porque o Estado permite e aplica benefícios e prioridades para ricos e corporações, e não para a classe de trabalhadores, foi uma das causas que jogou o país na crise e desaguou no impeachment e na catástrofe política que o Brasil viveu durante o governo eleito em 2018.

Os partidos com base social precisam se aproximar dos movimentos organizados e ouvir os descontentes buscando o entendimento, alinhamento programático e desenho de soluções que acolham, engajem e criem expectativas positivas para o futuro.

Apesar da  taxa de informalidade vir recuando nos últimos anos (37,5%/jan26) ainda é um risco ao bem-estar social daqui 20 ou 30 anos.

Enquanto isso, a despolitização é um risco à democracia.

VOTE CONSCIENTE!