Cincopes

on 07 janeiro 2026

PLANEJAMENTO - ÓCIO, O BÁSICO VIROU PRIVILÉGIO

No mês de alerta à saúde mental e emocional, pensemos sobre lazer e repouso, direitos fundamentais na Constituição e na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Todo ano, fazemos planos sobre o que fazer, mas nunca reservamos um tempo para não fazer.

VIDA LOUCA é a síntese de nosso modo de vida e da forma como tratamos aquele que gera riqueza. Desigualdade econômica e social, cultura da produtividade, precárias condições de trabalho, custo do lazer, péssimo transporte público, caos urbano e a pressão por resultados fragilizam a vida e a saúde física e mental do trabalhador.

Mais que a jornada de 8 horas, ele enfrenta jornadas de até 4 horas num coletivo desconfortável, lotado, inseguro e nada pontual. Alimenta-se mal, sem tempo para os filhos, resolver problemas pessoais, tratar da saúde, atender compromissos e investir em aprendizado profissional. E nas folgas, seu lazer é ser motorista de aplicativo, entregas, serviços gerais, limpeza e outros bicos.

O lazer é caro, a especulação imobiliária diminuiu e afastou os espaços públicos, obrigando o uso de um transporte coletivo inexistente no final de semana.

A partir dos anos 80, o trabalhador tem seu salário achatado, enquanto o produto que ele cria ganha valor. A disparidade entre os maiores salários e os da grande massa se multiplicou por 30.

Pergunte porque o brasileiro se sujeita a viver em outros países fazendo trabalhos que aqui renega. É simples! Diferente do Brasil, o primeiro mundo valoriza o trabalhador, a mão de obra tem melhores salários e os bens de consumo são mais baratos.

Todos já vimos vídeos de quem mora fora alardeando os preços baixos de carros e bens de consumo. Tente iniciar uma obra sem proporcionar estacionamento para os trabalhadores deixarem seus carros pra ver se contrata alguém. E só os muito ricos têm empregados, enquanto aqui, classe média tem cozinheira, motorista e babá. Nem vou falar do significado de rico para eles e de como aqui, qualquer um se acha rico por ganhar R$ 50 mil/mês.

E não adianta a desculpa do imposto, porque lá como cá, o leão pega.

Não tá no preço, mas tá no plano de saúde, na previdência privada, no aluguel, no consumo, no imposto sobre rendimentos e outros impostos e taxas que tem que pagar.

O salário mínimo é U$ 2.500 dólares (EUA) e a isenção é até U$ 16.000/ano. Passou 1 dólar, morre em 20%, sem faixa compensatória. Aqui, o salário mínimo é R$ 1.600 e está isento até R$ 60 mil/ano com taxa compensatória até R$ 90 mil/ano. Além de ter escola pública, do infantil ao ensino superior e um sistema de saúde universal democrático, pode abater 100% dos gastos com saúde e tem um teto para educação. Não é perfeito, mas é melhor que pagar U$ 3 mil pela ambulância em acidente de trânsito, U$ 250 dólares por um curativo ou hipotecar a casa para um tratamento de saúde.

Quando aparecerem os malucos contando das maravilhas de viver lá fora, pense nisso.

Apesar do esforço do setor de recursos humanos, o ambiente é o maior mal das empresas. A tecnologia só agravou o problema, muito pelo baixo nível de formação dos líderes. Desconhecem que a semana do trabalhador é continua, fez bico na folga pra comprar o material escolar do filho.

Vivemos a ideologia do cansaço! Se não reclamar, pressione por produtividade, mesmo que ela seja de má qualidade. Essa realidade faz o trabalhador se sentir culpado se não cansar.

Os impactos são diferentes entre as pessoas. Aqueles que podem, fazem do ócio performance em redes sociais, ostentação e luxo, reflexo das profundas desigualdades do país.

O ócio foi deturpado. De descanso necessário para a saúde mental e criatividade, passou a ser identificado como preguiça ou procrastinação.

Um bom tema para um Janeiro Branco, o mês da atenção à saúde mental e emocional.