Assistir Ainda Estou Aqui e o Agente Secreto é uma viagem no tempo.
Num, o tema é explicito. A leveza da feliz vida dos Paiva, aumenta o peso
do desaparecimento do pai, nos faz espectadores angustiados e testemunhas da
dor e do momento. É fato histórico.
No outro, a ditadura está em textos, manchetes, notícias no rádio,
pequenas passagens, origem e destino desconhecidos de personagens e nas figuras
obscuras e violentas que caçam o protagonista. Assistimos conscientes que é uma
ficção baseada em tantas histórias reais.
Ao sair da escuridão da sala de cinema, caímos na luz da realidade, e não há como sufocar a raiva ao pensar que há pessoas que não acreditam ou menosprezam a gravidade do período.
Mesmo os dados históricos, pesquisas acadêmicas e provas públicas
disponíveis em arquivos nas maiores uiversidades do mundo, no Departamento de
Estado dos EUA, na CIA, biblioteca do Capitólio e tantas fontes legítimas e
qualificadas, são insuficientes para trazer bom senso e lucidez às pessoas.
Somos um país que não alcança a redenção porque os bandidos sempre acham
ingênuos que pregam a anistia como sinônimo de paz, quando, na verdade, a impunidade
demonstra fraqueza de caráter.
Nos anos 60 e 70 passados, muitos países enfrentaram movimentos
alimentados pelos dois lados da Guera Fria, confiantes de que só a democracia
resolve os problemas da democracia.
A Grã-Bretanha enfrentou o terrorismo do IRA por 90 anos sem jamais ameaçar
a democracia.
A Alemanha combateu o grupo Baader-Meinhof sem alterar uma vírgula de sua
Constituição.
A Itália enfrentou o Golpe Borghese, de extrema-direita, a fúria das Brigadas
Vermelhas, de extrema-esquerda, e a Máfia, como crime organizado, sem jamais
pensar em desrespeitar a lei.
A Espanha resistiu ao ETA, separatistas bascos, por 50 anos, sem afrontar
o rei e a constituição.
Na América Latina, houve muitas ditaduras oriundas de golpes de estado em
vários países e todos processaram e puniram os golpistas, O Brasil é o único
país latino onde os militares são vistos como permanente ameaça à democracia.
A desculpa idiota de que o golpe
foi para “salvar” o país do comunismo se esvai ao ver o país legado.
Concentração de renda, desigualdade social, monopólios e oligópolios nos
principais setores da economia, a inversão da base do capitalismo – renda alta
e produtos baratos, por uma base industrial que produz para poucos e paga mal,
um sistema bancário cuja rentabilidade está nas taxas e juros, não no
desenvolvimento, um congresso que não representa a população, a cartelização da
corrupção, o crime infiltrado e organizado, uma mentalidade policial que vê o cidadão
como inimigo, uma lei de anistia que afronta o direito internacional, o privado
dono do Estado, uma sociedade dividida pela distorção do sentido de patriotismo
e uma impunidade que não nos permite dormir em segurança.
A sociedade precisa canalizar essa raiva para o ajuste de contas com seu
passado. Levantar véus, reescrever verdades, punir criminosos e traidores, enquadrar
o poder paralelo, ecocômico, criminoso e militar, e discutir nos bancos
escolares a nossa verdadeira história.
Enquanto as tristezas da nossa história forem fantasias alegóricas de
democracia, haverá inocentes a serem manipulados.
A próxima eleição será entre quem defende a democracia e quem prega o
autoritarismo e a ditadura disfarçados de patriotas, na verdade, pai-triotas.
Não podemos fugir do debate, é preciso posicionamento, porque o terror
está à espreita na urna das eleições.
VOTE CONSCIENTE!

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