Cincopes

on 22 setembro 2026

PROSA- JÁ CRESCEU?

Sou de uma geração com futuro previsível e provável.

Tinhamos círculo restrito de relações, fontes limitadas de pesquisa, oportunidades comuns em uma vida comum, ciclos longos de mudanças e uma nova geração surgia a cada 30/40 anos.

O capitalismo tardio trouxe uma pressão social e econômica que impactou fortemente as novas gerações com incertezas, inseguranças, ansiedade e busca incessante de um sentido de pertencimento, mesmo que não saiba ao quê.

É uma geração que está sempre em busca de uma identidade e, muitas vezes, interesses, marcas, redes sociais, carreiras fluidas, desencanto profissional e pressão social vão construindo e descontruindo suas identidades sem se aprofundar em sua essência. Não há mais escolhas individuais, nada tem marco definido, tudo é flexível, tudo é reversível.

O ciclo de maturidade tinha faixas etárias claras e atitudes sociais definidas. A gente saia da adolescência aos 18 anos - tirava título de eleitor, vibrava com a carteira de habilitação, fazia vestibular, os homens prestavam serviço militar e as meninas se transformavam de normalistas em professoras. Casava aos 24/25 anos, aos 30 já tinha família, imóvel, carro e carreira. Daí pra frente, era vida que segue até a aposentadoria, eles no jogo de dominó e elas no chá com as amigas, esperando a visita dos netos.

Hoje, segundo o IBGE, menos da metade das famílias brasileiras é formada por casais com filhos.

Profissionalmente, a trilha da educação formal terminava com a graduação (22/23 anos). Alguns avançavam na pós, mestrado e doutorado. Hoje, a trilha é interminável com aprendizagem permanente, independente da idade. Prateados disputam espaço com jovens nos bancos escolares, da graduação ao doutorado, passando pelos cursos de atualização e qualificação profissional.

A responsabilidade, que no meu tempo significava compromisso com a estabilidade, hoje tem o sentido de cuidado com seus interesses.

Até a independência foi ressignificada. Os jovens de hoje são mais livres e menos independentes.

A pandemia recolocou os 40+ no mercado e, como se diz no Exército, “caroneou” uma safra que se achava pronta para assumir a liderança.

Padrão de comportamento não existe, assim como um momento de transição clara para a vida adulta. Vivemos uma vida sem roteiro.

Ganha dinheiro antes da responsabilidade. Trabalha antes de ter uma profissão. Tem filhos antes de um relacionamentos estável. A casa dos pais é seu castelo.

E lá fora tem um mundo complexo e adverso. Pressão social, salários baixos, disputa de mercado com máquinas, imóveis caros e menores, poder de compra comprimido, fé oprimindo, tecnologia alienando, aposentadoria incerta, relacionamentos fluidos, as redes sociais expondo “novos ricos”, moleques de 14 anos ensinando a fazer fortuna e mostrando como você é um fracasso.

O contexto e as novas arquiteturas socieconômicas têm exceções em raríssimos recortes.

Perguntas que restam: você vive uma vida adulta? Você se preparou para uma vida adulta? Você reconhece uma vida adulta? Você recusa entrar na vida adulta por escolha ou falta de opção?

O mercado te vê apenas como consumidor e adora ver a placa “em obras” permanentemente em seu pescoço.

Quem não aprendeu a crescer, se coisificou.