Sou de uma geração com futuro previsível e provável.
Tinhamos círculo restrito de relações, fontes limitadas de pesquisa,
oportunidades comuns em uma vida comum, ciclos longos de mudanças e uma nova
geração surgia a cada 30/40 anos.
O capitalismo tardio trouxe uma pressão social e econômica que impactou
fortemente as novas gerações com incertezas, inseguranças, ansiedade e busca
incessante de um sentido de pertencimento, mesmo que não saiba ao quê.
É uma geração que está sempre em busca de uma identidade e, muitas vezes, interesses, marcas, redes sociais, carreiras fluidas, desencanto profissional e pressão social vão construindo e descontruindo suas identidades sem se aprofundar em sua essência. Não há mais escolhas individuais, nada tem marco definido, tudo é flexível, tudo é reversível.
O ciclo de maturidade tinha faixas etárias claras e atitudes sociais
definidas. A gente saia da adolescência aos 18 anos - tirava título de eleitor,
vibrava com a carteira de habilitação, fazia vestibular, os homens prestavam
serviço militar e as meninas se transformavam de normalistas em professoras.
Casava aos 24/25 anos, aos 30 já tinha família, imóvel, carro e carreira. Daí
pra frente, era vida que segue até a aposentadoria, eles no jogo de dominó e elas
no chá com as amigas, esperando a visita dos netos.
Hoje, segundo o IBGE, menos da metade das famílias brasileiras é formada
por casais com filhos.
Profissionalmente, a trilha da educação formal terminava com a graduação
(22/23 anos). Alguns avançavam na pós, mestrado e doutorado. Hoje, a trilha é
interminável com aprendizagem permanente, independente da idade. Prateados disputam
espaço com jovens nos bancos escolares, da graduação ao doutorado, passando
pelos cursos de atualização e qualificação profissional.
A responsabilidade, que no meu tempo significava compromisso com a
estabilidade, hoje tem o sentido de cuidado com seus interesses.
Até a independência foi ressignificada. Os jovens de hoje são mais livres
e menos independentes.
A pandemia recolocou os 40+ no mercado e, como se diz no Exército, “caroneou”
uma safra que se achava pronta para assumir a liderança.
Padrão de comportamento não existe, assim como um momento de transição clara
para a vida adulta. Vivemos uma vida sem roteiro.
Ganha dinheiro antes da responsabilidade. Trabalha antes de ter uma
profissão. Tem filhos antes de um relacionamentos estável. A casa dos pais é
seu castelo.
E lá fora tem um mundo complexo e adverso. Pressão social, salários
baixos, disputa de mercado com máquinas, imóveis caros e menores, poder de
compra comprimido, fé oprimindo, tecnologia alienando, aposentadoria incerta,
relacionamentos fluidos, as redes sociais expondo “novos ricos”, moleques de 14
anos ensinando a fazer fortuna e mostrando como você é um fracasso.
O contexto e as novas arquiteturas socieconômicas têm exceções em
raríssimos recortes.
Perguntas que restam: você vive uma vida adulta? Você se preparou para
uma vida adulta? Você reconhece uma vida adulta? Você recusa entrar na vida
adulta por escolha ou falta de opção?
O mercado te vê apenas como consumidor e adora ver a placa “em obras”
permanentemente em seu pescoço.
Quem não aprendeu a crescer, se coisificou.

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