Cincopes

on 24 setembro 2026

POLÍTICA - PIB, WAGE THEFT E CRIME ORGANIZADO

Dois fatos motivaram esse artigo.

Um foi o movimento orquestrado pelos EUA para que catorze países subordinados reconhecessem as facções do crime organizado brasileiro como organizações terroristas.

O outro é sobre o estudo que o IBGE está fazendo sobre mudar o método de cálculo e incluir atividades ilegais no índice do PIB.

Além da hipocrisia e a importância desmedida que dão ao dinheiro, pouco importando sua origem, é impressionante a capacidade do sistema norte-americano monitorar dados que outros desprezam.

Muitos estranham o combate que fazem ao tráfico de drogas e contrabando de armas fora das suas fronteiras, violando soberanias e mobilizando tropas, e não dentro do seu país. Ou da ausência de uma política pública interna de combate ao uso de drogas e em defesa da saúde pública.

A explicação é econômica, todos os dólares das atividades ilegais (bets, drogas, prostituição, lavagem de dinheiro, contrabando) fazem parte do cálculo do PIB estadunidense. E a investida no exterior, geralmente tem liberação de bilhões de dólares aos países com a garantia de compras de armas e equipamentos de segurança ianques. É uma triangulação legal de repasse de dinheiro público às empresas norte-americanas.

Criar polos de instabilidade regionais alimenta a cadeia da indústria armamentista e melhora o PIB. Muitas dessas armas são contrabandeadas com a complacência política e policial do estado, armando cartéis, milícias e grupos insurgentes que viram terroristas.

O setor impacta em cerca de 1% do PIB norte-americano, uma soma considerável num montante de cerca de U$ 26 trilhões. O país lava entre 20% e 30% do dinheiro sujo do mundo, 2,7% do seu PIB. O mercado interno das drogas, movimenta cerca de U$ 600 bilhões/ano, metade lavada no próprio país, mas o DEA e o FBI conseguiram rastrear apenas 1,2% deste valor, em 2025. Estes dados são oficiais e fazem parte da Avaliação Nacional da Ameaça das Drogas-2025, do DEA e do Departamento de Tesouro dos EUA..

E é o Brasil que não combate o crime organizado!

Outro dado monitorado é wage theft (roubo de salário). O custo anual para os EUA com os crimes de assaltos, furtos, roubos de veículos e arrombamentos é de U$ 13 bilhões, enquanto o roubo de salário é de U$ 60 bilhões. Wage theft engloba desde o roubo puro e simples (trabalho escravo), passando por assédio fora do horário de expediente, não pagamento de horas extras ou violação da pausa de jornada. Cerca de 6 milhões de trabalhadores recebem abaixo do salário mínimo legal e esses números não computam indocumentados sem proteção da Fair Labor Standards Act, a lei de 1938, que rege as relações laborais e que precisa urgentemente de atualização.

Segundo o Economic Policy Institute, nos EUA, você tem mais chances de ser roubado pelo patrão do que por um criminoso comum. E segundo o Economic Oportunity Institute, é a forma de roubo mais rentável no país, superando as drogas.

Há uma campanha nos EUA para que roubo de salário e a sonegação sejam transformados em crime de roubo com agravante por usar meios sem defesa. Estados como Califórnia, Nova York e Minnesota já tratam o caso como crime qualificado.

E depois, é o Brasil que viola leis do trabalho!

Não há justiça do trabalho nos EUA e esta realidade faz a alegria dos advogados especialistas, não porque a justiça seja rápida, mas porque as empresas preferem pagar do que litigar.

No Brasil, confiando na lentidão e manipulação dos tribunais, as empresas não pagam e se capitalizam com o dinheiro desviado.

Em pesquisa na página do TST, descobri que o valor pago em indenizações trabalhistas, em 2025, foi de mais de R$ 51 bilhões (equivalente ao crime nos EUA), quase o mesmo valor do Orçamento Secreto e metade do orçamento do Ministério do Trabalho.

Deste total, 40% foram por conciliação, 40% por decisão judicial e 10% por pagamento espontâneo.

Os departamentos jurídicos das empresas brasileiras sempre foram orientados a postergar, o litígio era sempre o começo, nunca o final. Nas organizações estadunidenses é resolver rápido.

A realidade está mudando, mas a pergunta não é ter ou não uma justiça do trabalho, é questão de caráter, mentalidade e custo-benefício.

A proposta do IBGE é uma equalização econômica que pode resultar no aumento de meio trilhão de reais no PIB. Sabemos quantos recursos perdemos com o crime (saúde, pirataria, sonegação, segurança, descaminho, lavagem de dinheiro etc.), mas desconhecemos quanto ganhamos.

Não é uma questão de melhorar o PIB, mas de entender o peso do crime na sociedade e seu custo para os cofres públicos.

Será que estamos gastando corretamente os recursos públicos?

Será que drogas leves como a maconha podem se juntar ao jogo e ao álcool e ser legalizada para virar fonte de receita e diminuir seu impacto na segurança? Mais gente morre e mata sob efeito de álcool do que da maconha.

Essa decisão já foi tomada em outros países e está madura para ser discutida no Brasil, sem paixões ideológicas ou religiosas.

Pode parecer estranho e imoral, mas a justificativa é plausível. São recursos que geram receita e movem a economia, recomendada pela ONU e está presente no cálculo do PIB de todos os países da União Europeia.

É uma questão de economia, estratégia de saúde pública e de combate ao crime.