Dois fatos motivaram esse artigo.
Um foi o movimento orquestrado pelos EUA para que catorze países
subordinados reconhecessem as facções do crime organizado brasileiro como
organizações terroristas.
O outro é sobre o estudo que o IBGE está fazendo sobre mudar o método de
cálculo e incluir atividades ilegais no índice do PIB.
Além da hipocrisia e a importância desmedida que dão ao dinheiro, pouco
importando sua origem, é impressionante a capacidade do sistema norte-americano
monitorar dados que outros desprezam.
Muitos estranham o combate que fazem ao tráfico de drogas e contrabando
de armas fora das suas fronteiras, violando soberanias e mobilizando tropas, e
não dentro do seu país. Ou da ausência de uma política pública interna de
combate ao uso de drogas e em defesa da saúde pública.
A explicação é econômica, todos os dólares das atividades ilegais (bets, drogas,
prostituição, lavagem de dinheiro, contrabando) fazem parte do cálculo do PIB estadunidense.
E a investida no exterior, geralmente tem liberação de bilhões de dólares aos
países com a garantia de compras de armas e equipamentos de segurança ianques. É
uma triangulação legal de repasse de dinheiro público às empresas
norte-americanas.
Criar polos de instabilidade regionais alimenta a cadeia da indústria
armamentista e melhora o PIB. Muitas dessas armas são contrabandeadas com a
complacência política e policial do estado, armando cartéis, milícias e grupos
insurgentes que viram terroristas.
O setor impacta em cerca de 1% do PIB norte-americano, uma soma
considerável num montante de cerca de U$ 26 trilhões. O país lava entre 20% e
30% do dinheiro sujo do mundo, 2,7% do seu PIB. O mercado interno das drogas,
movimenta cerca de U$ 600 bilhões/ano, metade lavada no próprio país, mas o DEA
e o FBI conseguiram rastrear apenas 1,2% deste valor, em 2025. Estes dados são
oficiais e fazem parte da Avaliação Nacional da Ameaça das Drogas-2025, do DEA
e do Departamento de Tesouro dos EUA..
E é o Brasil que não combate o crime organizado!
Outro dado monitorado é wage theft (roubo de salário). O custo anual para
os EUA com os crimes de assaltos, furtos, roubos de veículos e arrombamentos é
de U$ 13 bilhões, enquanto o roubo de salário é de U$ 60 bilhões. Wage theft
engloba desde o roubo puro e simples (trabalho escravo), passando por assédio
fora do horário de expediente, não pagamento de horas extras ou violação da
pausa de jornada. Cerca de 6 milhões de trabalhadores recebem abaixo do salário
mínimo legal e esses números não computam indocumentados sem proteção da Fair
Labor Standards Act, a lei de 1938, que rege as relações laborais e que precisa
urgentemente de atualização.
Segundo o Economic Policy Institute, nos EUA, você tem mais chances de
ser roubado pelo patrão do que por um criminoso comum. E segundo o Economic Oportunity
Institute, é a forma de roubo mais rentável no país, superando as drogas.
Há uma campanha nos EUA para que roubo de salário e a sonegação sejam
transformados em crime de roubo com agravante por usar meios sem defesa.
Estados como Califórnia, Nova York e Minnesota já tratam o caso como crime
qualificado.
E depois, é o Brasil que viola leis do trabalho!
Não há justiça do trabalho nos EUA e esta realidade faz a alegria dos
advogados especialistas, não porque a justiça seja rápida, mas porque as
empresas preferem pagar do que litigar.
No Brasil, confiando na lentidão e manipulação dos tribunais, as empresas
não pagam e se capitalizam com o dinheiro desviado.
Em pesquisa na página do TST, descobri que o valor pago em indenizações trabalhistas, em 2025, foi de mais de R$ 51 bilhões (equivalente ao crime nos EUA), quase o mesmo valor do Orçamento Secreto e metade do orçamento do Ministério do Trabalho.
Deste total, 40% foram por conciliação, 40% por decisão judicial e 10%
por pagamento espontâneo.
Os departamentos jurídicos das empresas brasileiras sempre foram orientados
a postergar, o litígio era sempre o começo, nunca o final. Nas organizações estadunidenses
é resolver rápido.
A realidade está mudando, mas a pergunta não é ter ou não uma justiça do
trabalho, é questão de caráter, mentalidade e custo-benefício.
A proposta do IBGE é uma equalização econômica que pode resultar no
aumento de meio trilhão de reais no PIB. Sabemos quantos recursos perdemos com
o crime (saúde, pirataria, sonegação, segurança, descaminho, lavagem de
dinheiro etc.), mas desconhecemos quanto ganhamos.
Não é uma questão de melhorar o PIB, mas de entender o peso do crime na
sociedade e seu custo para os cofres públicos.
Será que estamos gastando corretamente os recursos públicos?
Será que drogas leves como a maconha podem se juntar ao jogo e ao álcool
e ser legalizada para virar fonte de receita e diminuir seu impacto na
segurança? Mais gente morre e mata sob efeito de álcool do que da maconha.
Essa decisão já foi tomada em outros países e está madura para ser
discutida no Brasil, sem paixões ideológicas ou religiosas.
Pode parecer estranho e imoral, mas a justificativa é plausível. São
recursos que geram receita e movem a economia, recomendada pela ONU e está
presente no cálculo do PIB de todos os países da União Europeia.
É uma questão de economia, estratégia de saúde pública e de combate ao crime.

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